***Cara-de-pau:
Classificação morfossintática:
- [cara de pau] substantivo masc singular.
- [cara de pau] substantivo fem singular.
Sinônimos: atrevido, sem-noção, exibido, “que se acha”.
Antônimos: tímido, discreto, sincero.
Palavras relacionadas: sem-vergonha; safado; imbecil.
E tu vai crescendo, sendo que teu primeiro salário na vida foi de R$ 300,00, sem direito a passagem ou almoço. Um passo, depois outro, que foi o teu primeiro aumento, que te levou ao salário de R$ 400,00 um ano depois da contratação. A tua margem de gastos incluía metrô, lanche, material de xerox da faculdade, ônibus, cerveja e quem sabe vinho, esporadicamente.
Daí depois tu sofre o pênalti trabalhando como caixa de uma livraria, e quase mata um cara esguelado, vê oito vezes e meia por dia o mesmo filme (O Rei Leão), veste uma camisa pólo hor-ro-ro-sa e ainda assim, ganha pouco. Até ser demitida.
Um tempo depois vai trabalhar no governo, e tua função, entre outras mil coisas importantérrimas, é passar café, recortar jornal, responder e-mails que vêm pelo site do Governo e fazer enormes correntes de clips durante a tarde. Aí tu recebe uma câmera, vai visitar assentamentos com gente doida e que numa mão segura uma foice e noutra um copo de cachaça, passa mais tempo dentro dum carro com um véio barbudo do que em casa com o próprio cachorro. No final de quatro anos, a câmera é substituída por uma bandeira, e teus almoços, dali pra frente, são em cada esquina movimentada que a kombi do partido te levar. E não reclame. Só acene, e entone o cântico da campanha.
Depois de muito pensar sobre o quanto eu trabalhei pra conseguir uma função que me permita ser feliz, e de tudo que eu passei e que me guiou pelo caminho divertido (e como negar que é?) da indecisão e das decisões errôneas, me contrasto com o que o resto das pessoas lá fora do meu mundo sofrem com o descaso político. Deriva uma assessoria dubitável de uns gatos pingados que valem a pena, entre um mar de outros cara-de-pau*** merecedores (?) de seus R$ 26.723,13 (vinte e seis MIL, setecentos e vinte e três reais, com treze centavos) mensais. Só a cifra entre o ponto e a vírgula desse número é maior do que o salário mínimo do trabalhador corriqueiro, brasileiro, pai de família, ou não, merecedor de “atalhos” magistrosos e pintados num dourado falso, como o bolsa-família, o programa disso-e-daquilo, o auxílio-não-sei-o-que.
E esses cara-de-pau*** a que me refiro ainda titubeiam em conceder aumento de CINCO reais ao mínimo valor do mínimo. Mínimo, mesmo. O máximo do mínimo.
Cinismo, colegas, é acharmos que vivemos mal, e reclamamos da nossa capacidade de compra, em meio a um País miserável e injusto. Admiração, sim, deveríamos ter em relação ao mais simples, e ao contrário do que se vê, eles deveriam almejar e não fazer de sua posse aquilo que vêem em ti, quando te olham.
Todos erramos. Estamos todos errados, agindo errôneamente, dando valores errados aos nosso filhos, errando cada dia mais e a cada dia sempre, e assim segue a barca alegre dos bonachos e borrachos que se igualam ao verme no final.
Como dizia meu avô, “Assim como são as pessoas, são as criaturas. Umas claras, outras escuras, mas no final do fim, todas iguais e fedidas em suas sepulturas.“
Segue o baile, gaitero.
