Marcha da Maconha, Marcha das Vadias, Porto Alegre é na minha visão uma das cidades em que mais pessoas se revoltam e decidem gritar pelos seus direitos, e por aquilo que acha certo. Não acho que vá se resolver tudo por aqui, porque a ciclovia é uma lenda, o metrô em POA é uma farsa, e somos premiados com perimetrais que não tem nenhum sentido, mas em compensação, tem mil sinaleiras. Como se pode ver, a reflexão aqui é: quando depende de pessoas, a coisa anda. Quando depende de encarar de verdade o governo, as pessoas despilham, vira-se as costas e dá-se de ombros. Lembro que desde pequena eu vejo os cartazes dos punks para que votemos nulo. Lembro das paredes pichadas “RBS mente”, o “governo tortura”, esse ou aquele partido, aqui ou naquele outro bairro.
O fato é que ninguém decidiu ainda levar as consequências além. Muita gente de coração bom se gasta colocando os peitos pra fora, ou segurando uma bandeira da Jamaica (?), ou pintando bandeira partidária. Essas sim, as pessoas que deveriam estar lá, ocupando alguma decisão. Mas e aí ser político vira um dragão, do tipo “se eu me candidatar, todos vão me chamar disso, daquilo, vou me vender ao sistema”. Paraí, né?
Eu sou presidente de mesa há anos nas eleições em Porto Alegre, e me cai a cara de ver toda aquela papelada que tenho que colar no lado de fora da sala com um milhão de nomes de candidatos conhecidamente corruptos. E no final, como só o nome deles é conhecido, o pinta acaba votando pra não votar em quem não conhece. Veja lá a Nega Diaba ou o Lobisomem, que mais são piada do que política real.
Brasileiro reclama, mas na hora do programa eleitoral, desliga a TV, na hora da Voz do Brasil, desliga o rádio. Espera pra que os outros decidam quem vai bater na cara dele, por ele. Assim não dá trabalho.
Mas aí o Brasil é um país de todos, né não?
Espero ansiosamente quando essa gente que sabe discernir o limiar (quase invisível) entre o preto e o branco, o bom e o mau, que na maioria das vezes parece impossível – tamanhas possibilidades de uso das palavras e da sua força que se conhece – se permitam governar.
Meu voto será teu.
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o máximo do mínimo
***Cara-de-pau:
Classificação morfossintática:
- [cara de pau] substantivo masc singular.
- [cara de pau] substantivo fem singular.
Sinônimos: atrevido, sem-noção, exibido, “que se acha”.
Antônimos: tímido, discreto, sincero.
Palavras relacionadas: sem-vergonha; safado; imbecil.
E tu vai crescendo, sendo que teu primeiro salário na vida foi de R$ 300,00, sem direito a passagem ou almoço. Um passo, depois outro, que foi o teu primeiro aumento, que te levou ao salário de R$ 400,00 um ano depois da contratação. A tua margem de gastos incluía metrô, lanche, material de xerox da faculdade, ônibus, cerveja e quem sabe vinho, esporadicamente.
Daí depois tu sofre o pênalti trabalhando como caixa de uma livraria, e quase mata um cara esguelado, vê oito vezes e meia por dia o mesmo filme (O Rei Leão), veste uma camisa pólo hor-ro-ro-sa e ainda assim, ganha pouco. Até ser demitida.
Um tempo depois vai trabalhar no governo, e tua função, entre outras mil coisas importantérrimas, é passar café, recortar jornal, responder e-mails que vêm pelo site do Governo e fazer enormes correntes de clips durante a tarde. Aí tu recebe uma câmera, vai visitar assentamentos com gente doida e que numa mão segura uma foice e noutra um copo de cachaça, passa mais tempo dentro dum carro com um véio barbudo do que em casa com o próprio cachorro. No final de quatro anos, a câmera é substituída por uma bandeira, e teus almoços, dali pra frente, são em cada esquina movimentada que a kombi do partido te levar. E não reclame. Só acene, e entone o cântico da campanha.
Depois de muito pensar sobre o quanto eu trabalhei pra conseguir uma função que me permita ser feliz, e de tudo que eu passei e que me guiou pelo caminho divertido (e como negar que é?) da indecisão e das decisões errôneas, me contrasto com o que o resto das pessoas lá fora do meu mundo sofrem com o descaso político. Deriva uma assessoria dubitável de uns gatos pingados que valem a pena, entre um mar de outros cara-de-pau*** merecedores (?) de seus R$ 26.723,13 (vinte e seis MIL, setecentos e vinte e três reais, com treze centavos) mensais. Só a cifra entre o ponto e a vírgula desse número é maior do que o salário mínimo do trabalhador corriqueiro, brasileiro, pai de família, ou não, merecedor de “atalhos” magistrosos e pintados num dourado falso, como o bolsa-família, o programa disso-e-daquilo, o auxílio-não-sei-o-que.
E esses cara-de-pau*** a que me refiro ainda titubeiam em conceder aumento de CINCO reais ao mínimo valor do mínimo. Mínimo, mesmo. O máximo do mínimo.
Cinismo, colegas, é acharmos que vivemos mal, e reclamamos da nossa capacidade de compra, em meio a um País miserável e injusto. Admiração, sim, deveríamos ter em relação ao mais simples, e ao contrário do que se vê, eles deveriam almejar e não fazer de sua posse aquilo que vêem em ti, quando te olham.
Todos erramos. Estamos todos errados, agindo errôneamente, dando valores errados aos nosso filhos, errando cada dia mais e a cada dia sempre, e assim segue a barca alegre dos bonachos e borrachos que se igualam ao verme no final.
Como dizia meu avô, “Assim como são as pessoas, são as criaturas. Umas claras, outras escuras, mas no final do fim, todas iguais e fedidas em suas sepulturas.“
Segue o baile, gaitero.